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Rio São Francisco tem o seu pior volume

O rio está morrendo e os projetos de revitalização anunciados pelo governo nunca saem do papel

O rio está morrendo e os projetos de revitalização anunciados pelo governo nunca saem do papel

POR: JOÃO MARTINS

Pode se dizer que a situação do Rio São Francisco é catastrófica. No dizer de moradores ribeirinhos, acostumados a cortar de barco aquelas águas, nunca se viu o Velho Chico tão raso nessa época do ano. Não tem chovido na cabeceira do rio, nem ao logo do seu percurso em Minas Gerias. E não bastasse isso, o rio está cada vez mais assoreado, e seu leito, por conta do soterramento, quase nivela com suas margens em muitos pontos dos seus 2.863 quilômetros de extensão – da nascente, na Serra da Canastra em MG, à foz, no oceano atlântico, entre Alagoas e Sergipe.

Segundo Valdomiro Batista de Jesus, 57 anos, morador da cidade de Malhada/Bahia, pescador desde os 11 anos, o rio está muito baixo e a tendência é baixar cada vez mais. “Uns queixam do desmatamento, outros da sujeira que jogam no rio, mas não é nada disso não: a culpa é muito mais dos comandantes do nosso Brasil; os governantes têm muita culpa porque as nascentes fortes do rio eles estão tombando tudo e fazendo represas; o rio está morrendo, porque os afluentes que jogam água nele não têm mais”, disse o ribeirinho.

No trecho do rio que separa as cidades de malhada e Carinhanha, numa largura de 1000m, o curso d’água está quase interrompido em muitos pontos, por causa das bancas de areia que se formam por todo lado, impedindo quase que totalmente a navegação até mesmo de pequenas embarcações. “Esta ilha aqui, por exemplo, é nova, tem menos de 10 anos”, aponta para o meio do rio o velho pescador Santílio Batista dos Santos, 68 anos, 32 de pescaria e já aposentado, também morador em Malhada. “Eu ainda saio para pescar de vez em quando, mas está muito difícil porque o rio está muito baixo”, disse o pescador.

O Velho Chico, que suportava grandes embarcações, hoje está para canoas

O Velho Chico, que suportava grandes embarcações, hoje está para canoas

Defronte ao cais de Malhada, onde habitualmente grandes embarcações ancoravam, desde os remotos tempos dos colonizadores, para embarque e desembarque de mercadorias e produtos da agricultura ribeirinha, a situação é de destreza. O transporte fluvial praticamente inexiste, nem mesmo para os “gondoleiros” do Velho Chico que ganhavam o pão de cada dia fazendo travessias de turistas ou pescando o peixe do almoço. “Eu tinha o meu barquinho e trabalhei aqui mais de seis anos fazendo travessias de pessoas quando ainda não tinha a ponte, mas agora acabou tudo isso”, lamenta o remeiro Nivaldo Ribeiro dos Santos, 45 anos, hoje um trabalhador da agricultura, do município de Malhada.

O Carinhanha se atravessa a pé

No encontro com o Carinhanha, afluente da esquerda, agora se atravessa a pé

No encontro com o Carinhanha, afluente da esquerda, agora se atravessa a pé

Do outro lado o rio, na margem esquerda, onde fica a cidade de Carinhanha, o cais é um grande abismo sem qualquer serventia comercial. A praia do Pontal, principal ponto turístico, na confluência com o rio Carinhanha, as águas estão tão rasas que se pode atravessar a pé em vários trechos. O caudaloso “Rio da Integração Nacional” se transformou em filetinhos de água que mal dá para molhar os pés dos banhistas.

Às sombras da muquém, Santílio, Nivaldo e Valdomiro lembram os velhos tempos

Às sombras da muquém, Santílio, Nivaldo e Valdomiro lembram os velhos tempos

O comércio local – meia dúzia de barres -, que vive exclusivamente do movimento dos visitantes, se queixa da queda nas vendas. “Desde quando se conhece isso aqui, nunca teve uma situação dessa não. Atravessar o Carinhanha a pé, nunca teve isso não! Eu trabalhei antes oito anos na balsa fazenda travessias e nunca vi uma situação desta”, disse o dono de bar Gervásio Pereira Costa Júnior, 28 anos, filho de comerciante que há muitos anos trabalha naquela praia. Ele tem um dos melhores estabelecimentos, mas nem por isso está confiante no futuro. “Tenho estrutura para servir até a 100 pessoas de uma vez, mas hoje o movimento está reduzido a menos de 20 por cento do que tinha aqui”, disse.

O movimento caiu em mais de 80% e Júnior lamenta a ausência dos turistas no bar

O movimento caiu em mais de 80% e Júnior lamenta a ausência dos turistas no bar

Júnior, como é mais conhecido, está mais preocupado com o que poderá acontecer nos próximos meses, visto que o período das secas está apenas no começo. Prevendo o pior, ele projetou e construiu uma pista de Motocross visando promover competições e, assim, atrair mais pessoas, mesmo com pouca água no rio. A próxima competição está agendada para acontecer no mês de outubro.

Dragagem

A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) assinou dia 29 de maio contrato para os serviços de batimetria (quantificação do material a ser dragado) e monitoramento ambiental visando os trabalhos de dragagem do trecho da hidrovia do São Francisco entre os municípios de Ibotirama e Pilão Arcado, no Oeste baiano. As primeiras etapas deveriam ter sido iniciadas na 2ª quinzena de junho.

Os serviços somam investimentos da ordem de R$ 1,5 milhão, repassados à Codevasf por meio de termo de compromisso com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), vinculado ao Ministério dos Transportes. E serviços de batimetria deverão ser efetuados em 21 trechos do rio São Francisco, ao longo de 320 km, durante e depois da dragagem.

“A batimetria é para definir corretamente a quantidade de areia ou cascalho a ser retirada do fundo do rio, de modo a permitir a navegação no canal da hidrovia”, esclarece o engenheiro cartógrafo da Codevasf e fiscal do contrato de batimetria, Kauem Simões. Já o monitoramento ambiental das ações de dragagem, conforme explica o gerente de Meio Ambiente da Codevasf, Sérgio Henrique Alves, é para garantir que os serviços estarão sendo feitos da forma correta, atendendo às condicionantes estabelecidas pelo órgão ambiental que autoriza as intervenções. Como parte das ações, será feito um monitoramento da qualidade da água e da ictiofauna (conjunto das espécies de peixes).

Interesse privado

Se entre Ibotirama e Pilão Arcado há uma proposta para dragar as areias do rio e assim refazer o seu curso navegável, porque no percurso que envolve as cidades de Malhada e Carinhanha, por exemplo, nenhuma proposta oficial foi anunciada para conter o assoreamento do rio?.

A farta areia que se acumula nesse percurso poderia gerar muita riqueza e trabalho para o morador ribeirinho que perdeu seu emprego de pescador. Entretanto, apuramos junto àquela comunidade que ninguém conseguiu uma licença do Ibama ou de qualquer outro órgão governamental para implatação de dragas ao longo do rio. Alguns poucos empresários têm ousado colar suas dragas às margens do rio, de forma clandestina, mas correndo o risco de serem multados e punidos a qualquer momento.

Se o governo não tem capacidade técnica e financeira para estender os serviços de dragagem e batimetria ao longo de todo o rio, porque então não privatizar tais serviços e incluir nessa tarefa a responsabilidade de reflorestamento das margens do rio? Fica aqui a pergunta.

A centenária Malhada, portuária dos tempos coloniais, parece cidade abandonada

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2 comentários

  1. o povo merecer o governo que tem.Sim não fosse assim a Dilma ,perderia as eleições no nordeste e o foco de outro governo poderia salvar o velho chico. o pt abusa da inocência dos ribeirinhos ,retira a pouca água do velho chico , enganano a população desviando e matando o nosso glorioso velho chico. acorda ribeirinhos?

  2. Harlei Cursino Vieira

    Tem que chover na nascente do Rio São Francisco, para a recuperação do rio.

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