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Dr. Pedro Malheiros fala sobre Câncer de mama

dr pedro malheiros

O Brasil estima que 57.120 novos casos tenham ocorrido em 2014. O exame precoce é quem salva.

O INCA – Instituto Nacional do Câncer José de Alencar Gomes da Silva, instituição vinculada ao Ministério da Saúde, estima que o Brasil tenha registrado 57.120 novos casos de câncer de mama em 2014 (56,09 casos a cada 100 mil mulheres). O número de mortes pela doença, em 2011, foi 12,10 para cada 100 mulheres. Em todo o mundo, a estimativa de 2012 apontou a ocorrência de cerca de 1,67 milhão de novos casos dessa neoplasia, o que representa 25% de todos os tipos de cânceres diagnosticados nas mulheres. Os índices de incidência variam entre as diferentes regiões do mundo. Na Europa Ocidental, chega a 96/100 mil mulheres, e na África Central e na Ásia Oriental a 27/100 mil. No Brasil esse percentual varia em cada regiãoão, entre as mulheres do Sul tem se registrado maior incidência que as do Norte e Nordeste.

Para falar a esse respeito, entrevistamos o médico-mastologista Pedro Antônio Pereira Malheiros, o Dr. Pedro Malheiros, um respeitado profissional que atua há mais de 15 anos nesta região da Serra Geral da Bahia, especificamente nessa área da Mastologia.

INTEGRAÇÃO – Dr. Pedro, esses índices têm alguma relação, por exemplo, com a raça, clima ou cultura alimentar das mulheres?

DR. PEDRO – Primeiramente, obrigado pela oportunidade de estar falando para sua Revista um pouco do que a gente sabe do câncer de mama. Com relação à incidência, de fato isso ocorre. Os lugares onde têm maior incidência são onde as pessoas têm maior poder aquisitivo, porque o câncer de mama está relacionado com sedentarismo e o tipo de alimentação. Quem tem maior poder aquisitivo, está mais disposta ao sedentarismo: anda mais de carro, de moto… esforça-se menos; enquanto no Norte e Nordeste do Brasil tem muita gente que ainda vive na zona rural e, no dia a dia, elas estão sempre se esforçando na busca dos seus sustentos, consequentemente são menos sedentárias. Outro fator importante é a alimentação, que é mais natural, enquanto que as pessoas de maior poder aquisitivo comem “mal”, muito sanduíche, além de terem uma vida mais atribulada, e tudo isso contribui para uma maior incidência não só do câncer de mama como também a outros tipos de cânceres. Em relação à raça, há maior incidência entre branca, em relação à negra. Em relação à cultura, é como eu disse: quanto mais culta, mais inserida na vida moderna, mais disposta ao sedentarismo, ao corre-corre do dia a dia, será maior a incidência. O câncer de mama é uma doença da mulher moderna.

INTEGRAÇÃO – E os chamados grupos de risco – “risco padrão” ou “risco elevado” -, o que os classificam?

DR. PEDRO– Como todo tipo de câncer, há pessoas que estão mais propensas que outras. A principal causa é a hereditariedade, a genética: Quando você tem dois ou mais casos na mesma família e principalmente quando esses parentes são próximos, com a mulher que tem a mãe ou uma filha com câncer de mama, então ela está mais propensa e pertence ao grupo de “risco elevado”, as que não tiveram esses fatores genéticos ou outros fatores de risco, estão no de “risco padrão”. Outros fatores: a mulher que nunca teve filho ou que tenha uma lesão que ainda não é câncer, mas é um indicativo que possa virar câncer, como as hiperplasias ductais atípicas, são indicadores de que poderá vir a ter um câncer.

INTEGRAÇÃO – O fato de ter filhos ou não. Amamentar ajuda a prevenir o câncer de mama?

DR. PEDRO – A amamentação protege sim. Só o fato de ter tido uma gravidez completa (nove meses de gestação), mesmo que o filho tenha nascido morto (natimorto) e que a mãe não o tenha amamentado, ela já está protegida; mas se ela amamenta, aumenta ainda mais a sua proteção contra o câncer. A questão do número de filhos que ela amamentou, se muitos ou poucos, isso tanto faz. O mais importante é a idade em que ela amamentou: se foi depois dos 30 anos, a proteção é bem pequena, quase desprezível. Os partos que ela venha a ter antes dos 30 anos, isso é que lhe confere maior proteção em relação ao câncer de mama.

INTEGRAÇÃO – O fato de estarmos envoltos em complexa província mineral, onde há explorações de ferro, de mineração de urânio e outros minerais radioativos ou não, pode estar contribuindo para uma maior incidência desse e de outros tipos de cânceres, como acontece com os agrotóxicos usados na agricultura?

DR. PEDRO – Com relação a essa exposição, não há nenhum relato nos trabalhos científicos. Então, em relação ao câncer de mama, especificamente, não há qualquer relação com o aumento na nossa região. Em relação com os agrotóxicos também não há qualquer relação com o câncer de mama. Nos alimentos, os agrotóxicos estão envolvidos com os casos de leucemia, nos linfomas. Mas com relação ao câncer de mama, especificamente, não. As pessoas que ingerem alimentos ricos em gorduras, estas sim, estão mais susceptíveis ao câncer, especialmente quando comem muito e se tornam pessoas obesas. A obesidade tem muito a ver com o câncer de mama, principalmente se for uma gordura centrípeta (membros magros, normais, e o abdômen largo e barriga grande – a chamada mulher maçã). Já a mulher que é gorda, mas com gordura centrífuga – mulher pêra – essa é pouco propensa ao risco de câncer.

INTEGRAÇÃO – Pela sua experiência de mastologista – 15 anos de vivência nesta região sudoeste da Bahia – existem fatores de risco ao câncer de mama peculiares desta região?

DR. PEDRO – Não, não temos. O que temos aqui é que Guanambi está crescendo e já tem costumes e características de cidades grandes. As pessoas aqui estão tendo uma vida bem próximo dos que moram nas grandes capitais: vem o sedentarismo, a correria do trânsito, uma alimentação de sanduíches, baseada e nos embutidos de fast-foods (comida rápida) e nunca uma comida saudável, como a que a gente tem em nossa casa (com feijão, arroz e os seus complementos de verdura e legumes).

INTEGRAÇÃO – A idade continua sendo um dos mais importantes fatores de risco. Nesta região sertaneja da Bahia, especificamente, em que faixa etária se tem registrado as primeiras incidências do câncer de mama? Há alguma estatística nesse sentido?

DR. PEDRO – O câncer de mama tem ocorrido cada vez mais cedo. A cada 10 anos se observa que da doença atinge mulheres cada dia mais jovens. Mas a grande freqüência acometida é na faixa etária dos 45 aos 65 anos. Eu já tive pacientes – que infelizmente já foram a óbito – uma com 23 anos (em Palmas de Monte alto), outras duas de 29 anos e de 35 anos, todas com câncer de mama. Mas isso não é freqüente, são casos isolados. A grande freqüência, que podemos contar com 90 a 95% dos casos, ocorre acima dos 45 anos de vida.

INTEGRAÇÃO – Em que idade o Senhor aconselha às mulheres iniciarem os exames preventivos?

DR. PEDRO – A mamografia, que é um exame chave na prevenção do câncer de mama, “padrão ouro” da prevenção, deve ser realizada a partir dos 40 anos de idade, uma vez por ano, até a idade que a pessoa tenha condições de fazer o exame. Esse é um ponto que a gente sempre frisa, porque o câncer de colo, de pulmão, de ovário, câncer do endométrio (parte do útero), são cânceres que acometem as mulheres numa fase mais tardia da vida, geralmente após os 70 anos. E o câncer de mama tem tirado a vida de mulheres com 50, 55 anos, no auge de sua produtividade e com filhos ainda adolescentes. Essas mulheres são ceifadas de suas vidas ainda em plena atividade e com muito a dar à sociedade.

INTEGRAÇÃO – Existe ainda algum tabu com relação à doença?

DR. PEDRO – Claro! Existem muitas mulheres que ainda têm medo. Eu não diria tabu, mas medo em relação ao câncer. Elas não se tocam, não fazem o autoexame, não fazem mamografia pelo medo de dar positivo. Se o câncer já está instalado, não há como correr para ficar livre dele. O que tem que ser feito é o diagnóstico precoce. Tivemos aqui inúmeras pacientes que tivemos a oportunidade de operá-las ainda no início do problema e que continuam fazendo a revisão aqui com a gente há mais de dez anos e que estão ótimas, cuidando de suas famílias e de si próprias.

INTEGRAÇÃO – Alguns centros de pesquisa aconselham às mulheres a não confiarem nos autoexames de mama, por entenderem que uma autoanálise traz conseqüências negativas para a paciente, como o aumento do número de biópsias de lesões benignas e a insegurança psicológica diante aos diagnósticos positivos ou negativos. Qual é a sua recomendação nesse sentido?

DR. PEDRO – Isso é verdade. Tem alguns trabalhos mostrando que os autoexames não têm uma eficácia muito grande, mas eu continuo recomendando o que a Sociedade Brasileira da Mastologia recomenda: orientando as pacientes a fazerem o autoexame. Porque, no início os autoexames devem começar logo aos 20 anos. Ao longo da vida, fazendo os autoexames várias vezes, meses a fio, ela passa a se conhecer e o autoxamame passa a ter uma eficácia ainda maior. Se é um axame de graça, em sua casa, com todo o conforto, uma vez por mês, sempre alguns dias após a menstruação, eu não vejo porque não fazê-lo. Eu tenho recebido inúmeras clientes no meu consultório com nódulos que elas mesmas descobriram.

INTEGRAÇÃO – O câncer de mama também acomete os homens. Na sua clínica tem-se diagnosticado casos relevantes? Existe essa consciência na comunidade masculina?

DR. PEDRO – é interessante sua pergunta. Só tive um caso aqui, que eu diagnostiquei como sendo câncer de mama. Era um paciente da cidade de Candiba. Por acaso era nas duas mamas (bilateral). É raro em homens – um caso para 150 mulheres – mas existe. O procedimento de tratamento é praticamente o mesmo das mulheres. Ele não precisa estar fazendo o autoexame ou mamografia, mas se descobrir alguns carocinho na mama, deve procurar o médico para ser diagnosticado. Mas geralmente são em homens com com idade acima dos 50 anos. Aquela pedrinha que os adolescentes têm no peito não tem nada a ver com câncer de mama; aquilo de chama ginecomastia e desaparece com o tempo. Se não desaparecer com o tempo, deve procurar o médico.

INTEGRAÇÃO – As campanhas de conscientização das massas e o empenho da sociedade e dos poderes públicos nesse trabalho da Medicina Preventiva têm sido significantes e educativas? A comunidade tem atendido a esses apelos?

DR. PEDRO – Tem tido um efeito muito bom. A gente tem visto os principais canais de televisão mostrarem a importância do trabalho de mamografia, o auto-exame, a consulta com o mastologista. Mesmo assim, ainda chega muita gente nos consultórios com um câncer em estado avançado, mas a gente sente que tem diminuído muito. A gente percebe que esse trabalho, tanto dos governos federal, estadual ou municipal, como das entidades filantrópicas, tem contribuído muito para se diagnosticar as pessoas sobre o câncer de mama.

INTEGRAÇÃO – Sua clínica – o IMAM – Instituto de Mamografia e Mastologia – mantém um centro-diagnóstico – pelo que se nota – bem estruturado. Que prognósticos e procedimentos médicos se faz na sua clínica? E os equipamentos de diagnósticos são de tecnologia de ponta?

DR. PEDRO – o IMAM – nós tivemos a oportunidade, no dia 15 de janeiro, de fazer uma reinauguração da nossa nova sede na Rua Ruy Babosa. Não há aparelhagem além do que já tínhamos. O que fizemos foi adquirir um novo equipamento de mamografia de tecnologia digital de ponta – antes era convencional – e um aparelho de revelação mais avançado do que tínhamos antes e ampliamos a clínica em questão de espaço para nossos consultórios e movimentação em relação ao atendimento aos procedimentos de biópsias, de punções, e estamos aguardando novos parceiros para trabalharem conosco. As intervenções cirúrgicas fazemos fora, em hospitais da região.

INTEGRAÇÃO – E nos casos de procedimentos cirúrgicos onde as mamas são esvaziadas, se dispõe de equipes de cirurgiões plásticos para se fazer a recomposição da mama logo após a cirurgia?

DR. PEDRO – Infelizmente, nas pequenas cidades isso ainda é praticamente impossível. Acho que nem na cidade de Conquista é possível. Em Salvador, nos grandes hospitais de referência para o câncer de mama, como é o caso do Aristides Maltez – onde fiz meu curso de especialização – lá é possível se retirar a mama e se corrigir a deficiência no mesmo ato cirúrgico. Mas lá não atende toda a demanda, lá se faz cerca de 500 a 600 procedimentos cirúrgicos/mês e dessas apenas algumas são selecionadas para essa reconstrução imediata da mama. Estrutura física e técnica até que dispomos aqui em Guanambi, mas falta o pessoal especializado para os procedimentos cirúrgicos reparadores.

INTEGRAÇÃO – Sua clínica e seus serviços são prestados apenas a particulares ou também atende pelo SUS e outros convênios?

DR. PEDRO – Temos o atendimento particular para consultas, biópsias e ponções, mas atendemos também quase todos os convênios – Sulamérica, Bradesco, Cassi, Unimed e temos também convênios com algumas Prefeituras. Para mamografias atendemos, ainda, além desses planos citados, em convênio com o SUS.

INTEGRAÇÃO – Em casos mais avançados e de tratamentos prolongados, como os terapêuticos pós-cirúrgicos, os encaminhamentos a outros centros não têm sido esmeradamente burocráticos e, em muitas vezes, tardios?

DR. PEDRO – É muito importante esta pergunta. Nós temos aqui a parte cirúrgica que a gente consegue fazer – o primeiro procedimento é o cirúrgico -, mas em casos de o câncer estar muito avançado, não dá para operar, não temos como fazer a cirurgia. Então, a gente encaminha a paciente para fazer uma quimioterapia para diminuir o tumor (murchar o tumor) para que, a partir daí, possamos fazer a parte cirúrgica. Após a cirurgia, não temos aqui a radioterapia nem a quimioterapia, então encaminhamos a paciente para esse tratamento em Vitória da Conquista, que é o lugar mais próximo e que dispõe de maior facilidade de transporte, que pode sair de manhã e retornar no mesmo dia. No caso de tratamento por radioterapia, a paciente fica lá toda a semana e retorna a sua casa nos finais de semana.

INTEGRAÇÃO – E por que não dispor de estrutura a esses tratamentos aqui no Hospital Regional, já que temos uma estrutura tão grande?

DR. PEDRO – Existe uma promessa de campanha do atual governador da Bahia de se iniciar o tratamento de oncologia clínica – não se falou em radioterapia – em Caetité. Então estamos esperando que ocorra essa grande conquista, porque não é só o caso do câncer de mama, mas para todos os outros tipos de cânceres.

INTEGRAÇÃO – HÁ quantos mastologistas na região de Guanambi?

DR. PEDRO – Só eu e mais uma colega, a Marina Cambuy. Tenho a satisfação de nesses 15 anos – através de nossa clínica – poder não só diagnosticar, mas também tratar tanta gente acometida de câncer de mama, na grande maioria precocemente, operar essas pacientes e devolver-lhes – com a ajuda Divina – a saúde a elas e ao convívio com suas famílias. Faço um apelo às mulheres: não deixem de fazer os exames preventivos.

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