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A R$ 0,70 a unidade umbu-gigante garante renda a agricultor de Candiba

Por: João Martins

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Uma árvore pode produzir até 10.000 frutos/safra (fotos: João Martins)

 

O umbuzeiro [ou imbuzeiro], “árvore sagrada do sertão”, como profetizou Euclides da Cunha, tão comum nestes sertões de caatinga e semiárido do nosso nordeste, é, comprovadamente, uma fonte importante e promissora para a economia de muitos nordestinos. Um bom exemplo disso vem do distrito de Pilões, município de Candiba, perto de Guanambi/BA, no sítio Olho D´agua, de propriedade do agricultor Valdemiro Teixeira, 50 anos.

A iniciativa partiu do técnico agrícola Nelbino Alves Marques, há cerca de 10 anos, quando era então secretário da Agricultura daquele município, como parte de um Projeto seu que objetivava garantir renda extra à sobrevivência dos pequenos produtores do município.

“Meu projeto visava disseminar, através das 42 Associações de Moradores da zona rural, uma variedade do “imbu-gigante”, já então desenvolvida pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA)”, disse Nelbino. Na ocasião, ele distribuiu 4.500 mudas, conseguidas no Projeto Irrigado de Livramento/BA, onde a experiência já havia sido testada com sucesso. “Não acreditaram no meu projeto, a não ser o Valdemiro, do distrito de Pilões, e Vando Guimarães, da localidade de Lagoa da Pedra, o que foi uma pena, pois se tivessem seguido o exemplo de Valdemiro estariam todos com uma renda garantida”, disse ele.

RENDA GARANTIDA

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Nelbino (E) e Valdemiro estão otimistas com o projeto (foto: João Martins)

Numa área de 3,5 hectares, Valdemiro e mais os braços de sua esposa, Neuza, e do filho André, cultivam cerca de 100 imbuzeiros da variedade “gigante” (50 já produzindo) e outras tantas em idade de desenvolvimento. “Sabendo plantar, na fase certa da lua, a planta começa a produzir a partir de 2,5 anos”, confidenciou ele, que também investe na produção de mudas para comercialização.

A alegria do agricultor está estampada no seu sorriso franco, quando o assunto é umbu. Ele disse não ter ainda calculado o quando os umbuzeiros estão lhe rendendo. Mas fazendo as contas “por cima”, ele e seu técnico, Nelbino Marques, estimam que esta safra (começou em dezembro e vai até março) poderá gerar uma receita bruta de cerca de R$ 200 mil.

Os cálculos são os seguintes: cada árvore adulta, em plena produção, pode produzir uma média de 5.000 frutos; e cada fruto está sendo comercializado, no local, por R$ 0,70.  Mas o “filé” da cultura da cultura, segundo Valdemiro, não é o fruto, mas sim a produção e comercialização de mudas, que são vendidas a R$ 20,00. No momento ele mantém em estoque perto de 4.000 mudas.

Há três anos, fizemos a primeira reportagem sobre o sítio de Valdemiro, quando destacamos nas páginas da nossa Revista Integração Bahia o trabalho e dedicação do agricultor candibense, então entusiasmado com os primeiros resultados do projeto idealizado por Nelbino Marques. Desde então, a nossa publicação tem sido a matéria mais acessada e comentada do nosso Site www.integracaobahia.com.br, no Brasil e em outros países.

MELHORAMENTO GENÉTICO

Cultivado pelo sistema de enxertia, a variedade do umbu-gigante de Candiba – desenvolvida pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) – tem um sabor inigualável. O fruto, melhorado geneticamente, pode chegar a mais de 150g, variando de um pé para outro, a depender do “cavalo” e do enxerto. Depois do sucesso alcançado por Valdemiro já começa a despertar a atenção de outros agricultores da região, que diariamente vão ao seu sitio em busca de mudas.

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Alguns frutos chegam a pesar mais de 170g

PROJETO PILOTO – No sítio de Valdemiro, com área de 3,5 hectares, ele consorciou com imbuzeiro (Spondias tuberosa) a palma forrageira, feijão-guandu, pimenta, sorgo, abóbora, melancia e milho, cria abelha, galinha caipira e até marrecas, e nenhuma cultura compromete a outra, nem mesmo a criação de vacas de leite. Tudo isso foi propositadamente desenhado pelo agrotécnico Nelbino Marques, que sonhou em desenvolver um projeto altamente sustentável e promissor para as famílias agrícolas do seu município. Hoje, na condição de vice-prefeito, ele volta a sonhar em criar e implantar projetos semelhantes. “Espero poder contar com a sensibilidade do prefeito, Jarbas Martins Oliveira, para criarmos novas oportunidades de renda aos nossos agricultores”, disse ele.

Outras receitas do seu sítio vêm das colmeias de abelhas africanas, que lhe rende cerca de 120 kg de mel por ano. “Dá pra gente ir levando a vida”, disse o produtor, com a sua franqueza de sempre.

Apesar de sucesso, esta é a primeira safra que Valdomiro está comercializando em maior volume. “Antes a gente distribuía quase tudo de graça, porque a gente queria mesmo era difundir o nosso trabalho”, disse o produtor. Entusiasmado com o sucesso do projeto, ele disse “Dá pra gente ir levando a vida”, com a sua franqueza e humildade de sempre.

VIABILIDADE ECONÔMICA

Fazendo os cálculos de viabilidade econômica, baseado na experiência de Valdemiro, onde cada árvore pode produzir de 500 kg a 1.000kg por safra, Nelbino sonha muito mais alto com seu projeto: “Quando pensei nesse projeto, levei em conta os múltiplos produtos que podem ser obtidos do imbu, como polpa, doces, as flores para apicultura e até o aproveitamento de suas raízes na fabricação de doces”.

“SEU ELCINO” É PIONEIRO

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Primeiro imbuzeiro de Seu Elcino tem quase 50 anos e produz 1000 kg/safra
(João Martins)

Há aproximadamente 45 anos, o casal de agricultores Elcino Othon Teixeira, 83, e Eva Leopoldina, 71 anos, conseguiu uma muda do “imbuzeiro de Romualdo”, outro agricultor da localidade do Gentio (Ceraíma), distrito de Guanambi, e plantou-a em sua Fazenda Pirajuipe. “Era um tipo de imbu graúdo, como nenhum outro já visto na região, e era mais doce e mais carnudo”, detalhava Seu Elcino para Revista Integracão Bahia, em março de 2006.

Eram apenas 12 árvores nos primeiros anos de cultivo, resultantes do cruzamento (plantio por estaca) da variedade de “Romualdo” com outro imbuzeiro (Spondias tuberosa) nativo do quintal do agricultor, cujas árvores até hoje produzem em abundância e com a mesma vitalidade e qualidade de sempre. A primeira árvore (43 anos) do Seu Elcino produz até hoje uma média de 800 a 1000 kg em cada safra (janeiro a março) – imbu pesa entre 60 e 120g.

Dada a grande aceitação dos imbus do Seu Elcino, seus filhos, o contabilista/agricultor Valdir Elcino Teixeira e seu irmão caçula Elcino Filho, se interessaram pela cultura e passaram a desenvolver novos cruzamentos e a multiplicar o plantio na fazenda da família. Hoje, com mais de 100 árvores plantadas, a renda da família Elcino ampliou consideravelmente, principalmente no período da safra.

O investimento dos Elcinos não para por aí: eles estão produzindo e comercializando mudas. Aliás, esse tem sido o grande filé dos negócios. O projeto deu certo, não somente para eles, como também para muitos outros agricultores de Guanambi e da Bahia. A própria EBDA – Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola, órgão ligado à Secretaria de Agricultura do Governo da Bahia -, interessada no potencial econômico que poderá advir do cultivo de tal variedade de imbuzeiro, já foi conhecer a variedade de Ceraíma. Muito material genético, da variedade do Seu Alcino foi e continua sendo multiplicado no projeto de fruticultura de cidade de Livramento, região Sudoeste do Estado, e em outros centros de pesquisas agropecuárias.

FUTURO – O projeto futuro de Valdir comunga com os sonhos de Nelbino Marques: constituir, um dia, uma cooperativa dos produtores de imbu, com estrutura para industrialização do fruto – polpas, doces, compotas – e expandir a pesquisa e produção de mudas, suportada por uma estrutura de comercialização para outros centros consumidores do país e, quem sabe, exportar para outras nações.

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