
Vírus, que até 2023 estava restrito basicamente à região Norte, bateu recorde de casos no Sudeste; no estado de São Paulo, número passou de oito infectados em 2024 para 161 este ano, considerando os dados até setembro. (Crédito Ademildo Mendes/SVSA)
A febre Oropouche [doença viral, também conhecida como arbovirose, transmitida pelo mosquito-pólvora] alarmou o Brasil em 2024 ao se expandir além de sua abrangência típica, limitada à Amazônia, e alcançar estados das cinco regiões do país: 22 das 27 unidades federativas já registraram pelo menos um caso confirmado em laboratório. O Espírito Santo liderou o ranking, com 6,3 mil testes positivos só no ano passado — número que equivale a 45% dos 13,8 mil casos registrados no Brasil em 2024 e 39% do total de 16,2 mil pessoas infectadas nas Américas como um todo nesse mesmo período.
Em 2025, o vírus não diminuiu o ritmo. De acordo com o boletim epidemiológico mais recente da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), publicado em 13 de agosto, já houve 12,7 mil casos confirmados desde janeiro. Destes, 11,8 mil ocorreram no Brasil, com 6,3 mil no Espírito Santo, e os demais distribuídos por outros países latino-americanos e caribenhos. Além do próprio Brasil, os países mais afetados são Panamá (501 casos) e Peru (330). Segundo os dados do Ministério da Saúde até 30 de outubro, foram 11.930 casos, cinco óbitos confirmados e dois sob investigação.
No estado de São Paulo, o crescimento foi significativo, passando de 8 casos em 2024 para 161 até setembro deste ano, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde.
A expansão da doença, que é causada pelo vírus Orthobunyavirus oropoucheense (OROV), para fora da região amazônica intrigou infectologistas e epidemiologistas. Um novo estudo, conduzido por pesquisadores da Unesp, da USP e do Instituto Butantan, identificou os principais fatores que favoreceram essa movimentação, e estão empregando esses dados para prever, na medida do possível, seus próximos passos.
O artigo publicado no periódico PLOS One em julho explica que a infecção pelo vírus tem se mostrado mais comum em lugares que registram temperaturas e índices de precipitação acima da média. Essas condições favorecem a reprodução tanto do vírus quanto de seu vetor Culicoides paraensis, um inseto conhecido popularmente como mosquito-pólvora ou maruim. O aumento das chuvas e do calor se deveu, em parte, ao fenômeno de aquecimento global e ao fenômeno El Niño, que ocorreu entre 2023 e 2024 (entenda melhor nesta reportagem).
Um dos autores do artigo é Tiago Salomão, pós-doutorando no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp, no câmpus de Rio Claro, que pesquisa a interação entre mudanças climáticas e doenças com potencial epidêmico. Ele diz que as chamadas mudanças no uso da terra constituem outro fator que contribuiu para a explosão de casos a partir de 2024.
Conforme a mata nativa é removida para dar lugar a pastagens, plantações de soja e outras monoculturas, a biodiversidade diminui. Isso representa menos predadores e competidores capazes de interagir com a população de maruins, que se beneficia desse contexto e se expande. “Em biomas preservados, há mais concorrência com outros insetos e os Culicoides não conseguem se multiplicar no mesmo ritmo”, diz ele.
A nova pesquisa sustenta que alguns cultivos, como banana, dendê e algodão, se mostram especialmente benéficos para a subsistência dos Culicoides, devido ao acúmulo de matéria orgânica em decomposição no solo, que serve de alimento às larvas. Os dados também mostram que regiões denominadas “periurbanas”, de transição entre campo e cidade, são mais afetadas do que ambientes exclusivamente rurais ou urbanos, e que a existência de indicadores socioeconômicos menos favoráveis também se reflete em uma quantidade maior de casos.
Além dessas variáveis ambientais, é provável que uma mudança no genoma tenha aumentado a transmissibilidade do vírus OROV. Experimentos de laboratório com células de mamíferos isoladas mostram que uma cepa recente atinge concentrações até cem vezes mais altas que a versão comum ao se multiplicar em laboratório –- e pode ser que essa variante consiga driblar a memória imunológica de pessoas que já haviam contraído a doença no passado.
Fonte: UNESP – Assessoria de Comunicação e Imprensa





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