
Com a rápida expansão da Inteligência Artificial nas salas de aula, especialistas alertam que o desafio deixou de ser ensinar respostas e passou a ser formar alunos capazes de questionar, interpretar e pensar por conta própria. (IA-nas-escolas / Divulgação)
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa para se tornar parte da rotina escolar. Ferramentas capazes de escrever textos, resolver exercícios, traduzir conteúdos e produzir apresentações já são utilizadas por estudantes em diferentes países e ganham espaço, em ritmo acelerado, também nas escolas brasileiras.
O cenário acompanha uma tendência global. Segundo a UNESCO, mais de dois terços dos estudantes do ensino médio em países de alta renda já utilizam ferramentas de IA generativa em atividades escolares. Em contrapartida, apenas cerca de 10% das instituições de ensino possuem diretrizes oficiais para orientar esse uso, evidenciando que a adoção da tecnologia avança mais rapidamente do que a preparação das escolas.
No Brasil, o movimento segue a mesma direção. De acordo com a pesquisa TIC Educação, do Cetic.br/NIC.br, sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já utilizam ferramentas de Inteligência Artificial generativa para realizar pesquisas escolares. Entre os alunos do Ensino Fundamental II, esse percentual chega a 39%. Apesar da ampla adesão, apenas 32% dos estudantes afirmam ter recebido orientação da escola sobre como utilizar essas ferramentas de forma adequada.
O cenário evidencia que o desafio da educação já não está apenas em incorporar novas tecnologias, mas em preparar alunos, professores e famílias para utilizá-las de forma crítica, ética e consciente.
Mais do que uma transformação tecnológica, especialistas apontam que o avanço da IA representa uma mudança no próprio conceito de ensino. Se antes o foco era transmitir conhecimento, agora torna-se essencial desenvolver competências que nenhuma ferramenta consegue substituir, como pensamento crítico, autonomia, criatividade, ética, capacidade de interpretar informações e discernimento para avaliar a qualidade das respostas geradas por algoritmos.
Na avaliação da psicóloga da rede Legacy School, Mariane Albuquerque, a Inteligência Artificial pode ser uma importante aliada da aprendizagem, desde que exista mediação.
“Quando a criança passa a recorrer constantemente à IA para obter respostas prontas, há uma redução do esforço cognitivo necessário para elaborar soluções próprias. Isso pode comprometer o desenvolvimento da autonomia e do raciocínio. Por outro lado, quando há mediação adequada, a tecnologia pode ser utilizada como ferramenta de apoio ao aprendizado.”
Segundo ela, o maior risco não está na ferramenta, mas na forma como ela é utilizada.
“O pensamento crítico se desenvolve a partir da dúvida, da análise e da comparação. Se a criança apenas consome respostas prontas sem refletir sobre elas, esse processo tende a ser prejudicado.”
Além dos impactos cognitivos, a especialista chama atenção para os reflexos emocionais do uso indiscriminado da tecnologia.
“O contato constante com respostas rápidas e ‘perfeitas’ pode gerar insegurança em relação à própria capacidade, além de contribuir para ansiedade, principalmente em crianças que já apresentam maior sensibilidade emocional.”
Para a diretora pedagógica da rede Legacy School, Taís Guimarães, a Inteligência Artificial representa uma realidade irreversível, mas exige uma mudança na forma como as escolas enxergam o processo de aprendizagem.
“Mais do que ensinar respostas, buscamos formar alunos que saibam pensar criticamente e, principalmente, fazer boas perguntas.”
Na Legacy School, a IA é utilizada nas aulas de tecnologia e, de forma complementar, em outras disciplinas, sempre com acompanhamento do professor.
“A tecnologia potencializa o aprendizado, mas não substitui o processo. O foco continua sendo desenvolver raciocínio, autoria e autonomia.”
Nesse contexto, o papel do educador também se transforma. Em vez de ser apenas transmissor de conhecimento, o professor passa a atuar como mediador da aprendizagem, incentivando os estudantes a validar informações, comparar fontes, construir argumentos e desenvolver senso crítico.
“O maior erro que uma escola pode cometer é focar apenas na ferramenta e não na formação do aluno. A tecnologia, sozinha, não forma cidadãos críticos”, afirma Taís.
Outro ponto considerado fundamental pelas especialistas é o envolvimento das famílias. O uso responsável da Inteligência Artificial depende não apenas da escola, mas também da participação ativa dos pais, que precisam orientar, estabelecer limites e incentivar o diálogo sobre tecnologia.
Para Mariane, esse equilíbrio será decisivo na formação das próximas gerações.
“Estamos formando uma geração que terá acesso instantâneo a praticamente qualquer informação. Por isso, mais importante do que ensinar a encontrar respostas será ensinar a pensar, interpretar, questionar e confiar na própria capacidade.”
Nesse contexto, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma inovação tecnológica e passa a redefinir competências essenciais para a educação do século XXI. O debate já não é se a IA fará parte das escolas, mas como ela será utilizada para formar alunos mais autônomos, criativos e preparados para um mundo em constante transformação.
Informe à imprensa: Caroline Soares / Enviado Por: Cla Cri Com


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