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Perdas milionárias na pecuária abre espaço para bioinsumos no manejo animal, mas falta regulação

Com resistência a químicos e pressão por soluções sustentáveis, tecnologias biológicas ganham espaço; ANPII Bio, que representa a indústria de bioinsumos, amplia sua atuação na pecuária e defende regulamentação que garanta inovação, segurança jurídica e competitividade. (Divulgação)

Com resistência a químicos e pressão por soluções sustentáveis, tecnologias biológicas ganham espaço; ANPII Bio, que representa a indústria de bioinsumos, amplia sua atuação na pecuária e defende regulamentação que garanta inovação, segurança jurídica e competitividade. (Divulgação)

Curitiba (PR), outubro de 2026 — A pecuária brasileira perde, anualmente, cerca de US$ 3,2 bilhões em decorrência de desafios sanitários associados ao carrapato bovino, principal ectoparasito dos rebanhos nacionais. Com o avanço da resistência aos carrapaticidas, somado aos desafios relacionados ao uso de antiparasitários químicos sintéticos e à crescente demanda do mercado consumidor pela redução do uso de produtos químicos na produção de alimentos, o setor busca novas alternativas de controle que sejam eficazes e sustentáveis.

“Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos. Nesse cenário, é fundamental criar condições para que soluções alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera a relação entre a saúde animal, humana e ambiental, cheguem ao mercado e contribuam para um manejo mais seguro e sustentável”, afirma Caio Monteiro, pesquisador na área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

No entanto, apesar do avanço tecnológico e do potencial de aplicação, o segmento ainda não conta com uma regulamentação específica para o registro de produtos com bioinsumos destinados ao controle de parasitas na pecuária, o que dificulta a regularização dessas tecnologias e o acesso do produtor rural a essas soluções. Nesse contexto, a consolidação do mercado depende de um texto final para a regulamentação da Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) que contemple as particularidades desses produtos e garantam segurança jurídica, estímulo à inovação e competitividade. Atualmente, a regulamentação da lei segue em discussão a partir da minuta de decreto encaminhada por meio do Ofício nº 440/2025/DSV/SDA/MAPA, de dezembro de 2025, incluindo a construção de normas específicas para o registro desses produtos.

“O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação. Sem isso, o investimento desacelera e o país pode perder competitividade em uma frente estratégica para a produção animal”, explica Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio (Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos).

Nesse sentido, a entidade, primeira a representar as indústrias de insumos biológicos no Brasil, ampliou sua atuação no último ano para incluir, entre as associadas, empresas do segmento de biológicos para a pecuária, com foco em soluções voltadas ao controle de parasitas externos nos rebanhos. A iniciativa também amplia as possibilidades de parcerias e interlocução com pesquisadores e instituições acadêmicas ligadas ao desenvolvimento dessas tecnologias. O movimento reforça o protagonismo técnico já exercido pela associação no Grupo de Trabalho (GT) instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para a construção do marco regulatório da Lei de Bioinsumos, no qual participou como única representante exclusiva da indústria, com expertise específica em soluções de controle na pecuária, diferencial que segue relevante à medida que as discussões avançam para a consolidação do decreto.

O segmento e suas particularidades — Bioinsumos para uso animal abrangem produtos e processos de origem biológica, principalmente à base de microrganismos e seus metabólitos, aplicados na produção pecuária e aquícola para melhorar desempenho, saúde, bem-estar e eficiência produtiva, com foco em segurança, eficácia e qualidade industrial. Do ponto de vista tecnológico, a base é essencialmente a mesma dos bioinsumos agrícolas, com o uso de microrganismos benéficos, como, por exemplo, fungos e bactérias.

As diferenças mais relevantes estão no contexto de uso e nas exigências regulatórias: enquanto os biológicos agrícolas atuam sobre plantas, solo e organismos fitopatogênicos, os de uso animal interagem diretamente com o organismo animal ou com seu habitat, como é o caso do controle de carrapatos, moscas e outros parasitas, exigindo adaptações nos protocolos de uso, no manejo e nas condições práticas de aplicação.

Entre as alternativas em desenvolvimento estão fungos entomopatogênicos capazes de infectar carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento, com aplicação direta no animal e na pastagem. Vírus que infectam bactérias, conhecidos como bacteriófagos, também vêm sendo pesquisados como aditivos zootécnicos para a prevenção de infecções do trato gastrointestinal em aves, suínos e bovinos, com potencial para substituir ou reduzir o uso de antibióticos nesses casos.

Além de reduzir a dependência de insumos químicos, os biológicos apresentam potencial para diminuir impactos sobre organismos não-alvo e o risco de resíduos químicos em produtos de origem animal. “O uso de biológicos na produção animal possui enorme potencial, principalmente onde os problemas não têm solução eficiente disponível. A aplicação dessas tecnologias poderá reduzir o uso de produtos químicos e diminuir o risco de que organismos resistentes, como bactérias multirresistentes, sejam transmitidos para humanos via alimentação ou manejo”, ressalta Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences.

O potencial dessas tecnologias também está relacionado aos desafios crescentes do manejo sanitário. Os antiparasitários químicos utilizados no controle de carrapatos vêm perdendo eficácia progressivamente devido à seleção de populações resistentes. Além disso, o uso inadequado desses produtos pode aumentar o risco de resíduos nos alimentos e trazer impactos para a comercialização.

Em paralelo, as exigências relacionadas ao controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos também têm repercussões no comércio internacional. No início de setembro, a União Europeia suspendeu temporariamente a entrada de produtos brasileiros de proteína animal no bloco, com base nas regras europeias para o uso dessas substâncias.

“Esse cenário, além de evidenciar a importância do controle sanitário diante do comércio internacional, também reforça a necessidade de alternativas eficazes, seguras e sustentáveis para o manejo sanitário da pecuária nacional”, ressalta a diretora de operações da ANPII Bio.

Regulamentação, inovação e próximos passos — No âmbito da Lei de Bioinsumos, a ANPII Bio estruturou, dentro do GT do MAPA, uma frente técnica e outra institucional para garantir uma legislação baseada em critérios técnicos, proporcionalidade ao risco e estímulo à inovação, incluindo o segmento de bioinsumos destinados ao controle de parasitas externos na pecuária, que envolvem particularidades próprias de produção, formulação, comercialização, aplicação e avaliação de segurança, demandando que suas especificidades sejam contempladas com rigor no texto final do decreto. Dessa forma, o segmento pode se desenvolver com segurança e competitividade, consolidando o Brasil como referência global também nessa frente.

Para Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à ANPII Bio, o cenário regulatório deste setor é complexo, já que as exigências incluem não apenas os ensaios normalmente requeridos para produtos agrícolas (eficácia, toxicologia e ecotoxicologia), mas também ensaios de segurança clínica nos animais-alvo. “Do ponto de vista da base tecnológica, há pouca ou nenhuma diferença entre os biológicos de uso animal e os de uso agrícola. As diferenças mais relevantes estão relacionadas ao contexto de uso e às exigências regulatórias. É exatamente nesse contexto que a ausência de um marco normativo específico para uso animal impõe os maiores obstáculos ao setor”, aponta.

Dessa forma, a ANPII Bio estruturou, entre suas contribuições, uma série de propostas diretamente relacionadas às particularidades do segmento que devem ser consideradas no texto final da regulamentação. Entre elas estão a definição de critérios para a validação de metodologias analíticas; a adequação dos requisitos para registro de estabelecimentos; o reconhecimento do efeito direto desses produtos sobre seus alvos; a definição de uma lista positiva de ativos biológicos autorizados para uso na pecuária, identificados em nível de cepa; a harmonização de terminologias entre as áreas agrícola e animal, garantindo coerência técnica e evitando sobreposições conceituais; e a garantia de que bioinsumos de uso pecuário com efeito direto comprovado sobre parasitas e invertebrados possam informar esses efeitos em rótulo e bula, com clareza e responsabilidade técnica, restringindo a vedação a alegações de natureza terapêutica ou curativa, privativas de medicamentos veterinários.

Além da agenda regulatória, a entidade atua como ponte entre instituições de pesquisa, universidades, startups e deeptechs, conectando esse ecossistema às indústrias e investidores para viabilizar o escalonamento industrial, a validação tecnológica e a inserção segura das inovações no mercado. “Essas contribuições não são demandas isoladas, mas parte de uma visão integrada de como o Brasil pode liderar também nesse segmento, com a mesma seriedade técnica e capacidade industrial que já demonstrou nos bioinsumos para uso agrícola” finaliza Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio.

Release a imprensa: Letícia Rodrigues / Imprensa5p2r.com.br

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